O processo, que compreende a descoberta e todos os ritos científicos necessários, já dura algum tempo. Mas foi só no último sábado (23/11) que a notícia chegou a Chico César e, consequentemente, a seus fãs e seguidores nas redes sociais: uma flor descoberta na Bahia, na região da Chapada Diamantina, foi registrada com um nome científico que homenageia o cantautor: Aeschynomene chicocesariana.

O feito é do cientista Domingos Cardoso, que fez a postagem abaixo:

 

Ver essa foto no Instagram

 

Aeschynomene chicocesariana! sim, querido @oficialchicocesar, o apito do acaso me trouxe até esta homenagem… você não é apenas aquela ave frágil que avoa no sertão… esta linda flor agora tem o seu nome… escrevi uma etimologia sobre o nome científico, mas deixemos que a poética sertânica e sua luta biodiversa provoquem o que ele representa… será infinitamente lembrado na arte pela sua bela música e agora também na ciência pela nova espécie de flor que descobrimos nas montanhas do sertão da Chapada Diamantina na Bahia! eu tô ligado que você visualiza meu story… rsrsrsrs mas como seria lindo poder ver seu sorriso agora… eu que já cruzei algumas vezes com o seu olhar durante o mesmo voo… e, claro, durante vários shows… fico imaginando como seria lindo te levar bem no pé da planta na chapada… e fazer uma verdadeira balbúrdia aqui na praça das artes da ufba, te entregando esta homenagem em nome da ciência… sonhos apenas… ou quem sabe a flauta da imensidão apite neste acaso… esta nova catalogação foi resultado de anos de oportunidades em pesquisa também com meu mestre @lucianopaganucci, meus alunos @guclados e @pai_cuida, e a belíssima ilustração de @natan.bio e agradeço muito também a @lulaoficial \o/ eu saí foi lá do sertão de Tucano e tive todas as modalidades de bolsas de estudos pelo @cnpq_oficial (olha, não vou listar aqui um dos maiores premios que ganhei… minhas estradas estão gravadas em minhas mãos e minha luta também foi raíz forte de umbuzeiro… pergunta lá em Tucano ao dedé do mercado, ceiça do olavo, antônio da bila ou às professoras vilma e albertina do instituto) e hoje me orgulho muito em ser professor pesquisador da @universidadefederaldabahia! vamos continuar fazendo balbúrdia aqui! vai ter fogo na cara dos fascistas enquanto guardo no sorriso uma flor de Aeschynomene chicocesariana! @midianinja @casaninjabahia @chicobuarque @manueladavila @fernandohaddadoficial @osquintaisdemariaa @gilbertogil @caetanoveloso @mariagadu @russopassapusso @dilmarousseff @342artes @randolferodrigues @kunhaase por favor, ajudem a divulgar esta linda descoberta! #biodiversity #chicocesariana #newspecies #chapadadiamantina #biodiversidade

Uma publicação compartilhada por Domingos Cardoso (@formigacapoeiragem) em

Formado em ciências biológicas e com mestrado, doutorado e pós-doutorado na área, Domingos é bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e também pelo programa Newton Advanced Fellowships da The Royal Society (Reino Unido). Domingos já realizou palestras fora do país e recebeu prêmios internacionais como resultado do seu trabalho. “Tive a felicidade de, durante meu período de formação acadêmica, ter atravessado o período do governo de Lula e todo o impacto que isso causou também com relação às oportunidades de bolsas em universidades pequenas, e, particularmente, no Nordeste”, comenta Domingos. “Nunca precisei migrar pra estudar em São Paulo, tive toda a minha formação no Nordeste, em uma universidade estadual que teve oportunidade de crescer bastante em seu programa de pós-graduação”, complementa o cientista, reforçando a importância do olhar público para o ensino superior fora dos grandes centros.

Morfologia geral de Aeschynomene chicocesariana

Morfologia geral de Aeschynomene chicocesariana

A Aeschynomene chicocesariana “apareceu” na vida de Domingos em 2015 durante uma expedição em Ibicoara. “Fizemos uma trilha nos gerais do Machombongo, mas estávamos à procura de uma outra espécie de planta – as informações da coleta desta amostra é que nos levou até aquela localidade. Durante a trilha, me deparei com uma espécie interessante da família das leguminosas. Eram apenas algumas poucas plantas, crescendo isoladamente no meio daqueles gerais com um horizonte lindo e quase infinito em biodiversidade”, conta o cientista. Ali começou o processo de identificação e catalogação, que incluiu estudos detalhados da morfologia e sequenciamento de DNA, levando o cientista à certeza de que aquela planta é de uma espécie realmente desconhecida pela ciência.

Distribuição geográfica da Aeschynomene chicocesariana (círculo laranja) em um campo rupestre do planalto da Chapada Diamantina

Na época da descoberta, Domingos estava impactado pelo álbum Estado de Poesia e, especialmente, pela música “Reis do Agronegócio”: “Quando ouvi aquela música incrível, com toda aquela verdade poética científica e social junta, vi claramente que descrevia muita da realidade que as flores da Chapada, infelizmente ainda muito pouco conhecidas, têm passado frente às ameaças da expansão do agronegócio”, compara Domingos. Mas sua admiração por Chico César vem de muito antes. “Gosto de sua música desde minha juventude no sertão em Tucano (BA). Depois, em 2011, passei o ano em Bozeman, Montana, Estados Unidos, trabalhando no laboratório de meu professor e hoje muito amigo Matt Lavin e ouvíamos bastante ‘Prosa Impúrpura do Caicó’ enquanto a neve caía lá fora”, relembra o biólogo.

Aeschynomene chicocesariana teve sua descoberta publicada pela American Society of Plant Taxonomists e o artigo científico completo pode ser acessado em https://doi.org/10.1600/036364419X15710776741530 ou através de contato com o próprio autor principal e a equipe Chico César.